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AQ Feature

A história negra do Brasil desenterrada

Uma descoberta surpreendente revela um aspecto sombrio e intencionalmente esquecido do passado do país.
Silvia Izquierdo/AP

Este artigo foi adaptado da matéria impressa da AQ sobre transparência e as eleições de 2018. | Read in English

Ana Maria de la Merced estava almoçando em sua empresa de dedetização quando um pedreiro que ela contratou para reformar sua casa apareceu para falar sobre ossos.

Ele era um dos trabalhadores que estavam remodelando a casa, uma construção do século XIX, que ela tinha acabado de comprar com o marido em Gamboa, um bairro residencial com ruas de paralelepípedos na zona portuária do Rio de Janeiro. Era o primeiro dia de trabalho deles.

Ao romperem o chão de cimento, eles encontraram ossos, explicou o pedreiro. Muitos ossos. Ela deveria ir lá olhar, insistiu. Em casa, agachada ao lado de uma pilhas de entulhos, Merced começou a retirá-los: fêmures. Crânios. Ossos quebrados e misturados, mas claramente humanos. Uma mandíbula ainda continha embutidos os dentes minúsculos de uma criança.

Enquanto guardava os restos humanos em caixas de supermercado, ela tentava encontrar uma explicação para aquilo: Um massacre? Alguém teria matado uma família inteira? Ela cresceu na região e nunca tinha ouvido falar sobre nada parecido.

Ela decidiu perguntar a um especialista sobre a história local. Ele mostrou a ela um livro antigo sobre a região. Nele, havia um mapa. Merced viu uma geografia transformada: era seu bairro da Gamboa, mas a praia estava mais próxima. Na quadra onde fica sua casa hoje, apontou o historiador, havia um espaço em branco: provavelmente é o cemitério dos pretos novos, disse ele.

Naquele momento, o nome não significava nada para Merced. Mas a descoberta iria mudar radicalmente sua vida e revelar um mundo que havia sido intencionalmente enterrado e quase esquecido por mais de um século. A descoberta acidental trouxe à tona um aspecto da história que o Brasil nunca confrontou por inteiro — uma negligência que continua tendo repercussões na vida dos brasileiros ainda hoje.

Mais de 20 anos após esse dia em janeiro de 1996, Merced ainda se impressiona com a responsabilidade que, de repente, passou a ser dela.

“Isso não foi algo que eu procurei. Não é minha história”, explica Merced, uma mulher de olhos escuros e profundos e cabelos longos cujos pais migraram da Europa para o Brasil. “Isso aconteceu comigo. E eu não podia virar as costas.”

Até meados do século XIX, a Gamboa era uma extensão do complexo de comércio de escravos mais movimentado das Américas: o cais de Valongo. Antes de o comércio transatlântico ser oficialmente proibido, em 1831, cerca de 4,8 milhões de pessoas escravizadas foram levadas ao Brasil para cultivar açúcar, café e algodão, e trabalhar nas minas, de acordo com a Base de Dados sobre o Comércio Transatlântico de Escravos. Multidões chegavam em navios negreiros para uma vida de cativeiro ali mesmo, na praia onde Merced mais tarde comprou sua casa.

Para prevenir a propagação de doenças, os africanos recém-chegados eram colocados em quarentena em barracões. Muitos morriam antes de serem vendidos. Sem nome, sozinhos e longe de casa, seus corpos eram despejados no chamado “cemitério dos negros novos”, para serem cobertos com um pouco de terra e, quando o cheiro se tornava incômodo, queimados e mesclados ao solo e ao lixo.

Os registros históricos continham muitas referências ao mercado de escravos e à área onde os corpos eram enterrados. Um grupo de cidadãos apresentou queixa às autoridades e a jornais locais sobre as terríveis condições da área. Um visitante alemão, GW Freireyss, deixou a seguinte descrição: “No meio deste espaço havia uma pilha de entulhos da qual, aqui e ali, apareciam restos de cadáveres descobertos pela chuva e também havia muitos cadáveres pelo chão que ainda não haviam sido enterrados. Sem roupa, eles eram embalados em tapetes, que eram amarrados sobre suas cabeças e pés.

A localização do cemitério, no entanto, foi esquecida. Ela foi enterrada, juntamente com a história de Valongo, quando um cais novo foi construído em 1843 para a chegada de Teresa Cristina, a noiva do imperador Dom Pedro II, e novamente no início do século XX, durante a construção do atual porto do Rio.

À medida que a cidade e o país cresciam e se modernizavam, os brasileiros alimentavam o mito de que o país vivia em uma democracia racial. Havia pouco interesse em preservar lembretes sobre o comércio de humanos. Essa história foi intencionalmente obscurecida, diz Tania Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional/ Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Havia uma intenção de apagar Valongo”, diz Lima. “O Brasil nunca se reconciliou com essa parte de sua história.”

Esse esquecimento ainda tem repercussões no Brasil. A maioria negra e mestiça da população do país permanece presa na base da pirâmide socioeconômica. Eles ganham menos que os brancos, sofrem proporcionalmente mais violência e têm menos acesso a recursos e direitos. As contribuições de seus antepassados para o desenvolvimento e a identidade da nação — e o alto preço que pagaram por isso — também recebem pouca atenção.

Os ossos encontrados  embaixo da casa de Merced poderiam ajudar a mudar isso. Mas ela teria que enfrentar uma batalha.

Ela notificou as autoridades locais. Arqueólogos confirmaram a descoberta. Mas nada foi feito a respeito. Durante anos, ela pressionou o município por respostas, apoio ou pelo menos permissão para consertar o encanamento estragado.

Um dia, cansada de esperar, ela mesma fez uma pequena reforma. Com pouco dinheiro e sem conexões acadêmicas, ela procurou pesquisadores. Em 2005, eles fundaram uma organização cultural sem fins lucrativos — o Instituto dos Pretos Novos (IPN).

Em 2012, centenas de pessoas visitavam suas exposições, participavam de oficinas sobre a história negra e das celebrações anuais de 13 de maio, dia de 1888 em que a escravidão foi finalmente abolida no Brasil, o último país das Américas a fazê-lo.

A situação começou a mudar nessa época. À medida que a cidade se preparava para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, a área portuária negligenciada passou por uma reforma de US$ 5 bilhões. Isso incluiu o Museu do Amanhã, uma obra de US$ 54 milhões, criada para projetar o Rio como uma cidade global com um futuro promissor.

A renovação da infraestrutura decadente da região também deu aos pesquisadores a oportunidade de explorar seu passado enterrado. Lima, a arqueóloga, desenterrou o pavimento acidentado de Valongo e uma grande quantidade de contas, estatuetas, brincos, pulseiras, medalhas e outros amuletos levados pelos africanos recém-chegados.

As identidades dos homens e mulheres que desembarcaram em Valongo podem ter sido apagadas, mas esses artefatos contam a história da diversidade de suas origens, do rico emaranhado de suas crenças e da profundidade de seus medos e suas esperanças, diz Lima.

“Este é um lugar de memórias dolorosas, mas também deve ser celebrado”, diz ela. “Eles nos deixaram uma rica herança.”

O Instituto de Merced fez exatamente isso. Entre 2013 e 2016, com um fundo anual de US$ 18.000 conseguido através da parceria público-privada para o desenvolvimento do porto, o IPN recebeu cerca de 50.000 visitantes e mais de 6.000 participaram de suas oficinas.

O que ocorreu depois é um lembrete de como as histórias de Valongo e da cidade que cresceu ao seu redor permanecem interligadas.

Quando a Olimpíada terminou em meados de 2016, o estado do Rio de Janeiro estava quebrado. A violência havia aumentado, os professores estavam sem remuneração, e a região portuária foi abandonada novamente. Valongo, decretado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em julho de 2017 como “a evidência física mais importante associada à chegada histórica de africanos escravizados no continente americano”, está hoje negligenciado e sujo. À noite, usuários de crack se abrigam lá, diz Lima.

“Esta área tem sido estigmatizada desde que era um mercado de escravos”, disse ela. “O estigma continua.”

O fundo que mantinha o Instituto foi cortado em março de 2017. Decididos a manter as portas abertas, Merced e seu marido — de 61 e 70 anos, respectivamente — contam com doações e um termo em inglês que ela tem dificuldade  de pronunciar: crowd-funding. Ela não desiste.

“Essas pessoas enterradas aqui morreram sozinhas, sem um nome, sem que ninguém cuidasse delas”, diz Merced. “Eu posso fazer algo por eles.”

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Barbassa é jornalista premiada e editora-chefe da Americas Quarterly. Ela também é autora de Dancing with the Devil in the City of God: Rio de Janeiro on the Brink (Dançando com o Diabo na Cidade de Deus: Rio de Janeiro à beira do abismo), livro que escreveu usando como base os anos que trabalhou como correspondente da Associated Press no Rio de Janeiro. 

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