Politics, Business & Culture in the Americas
A corrida espacial

A corrida espacial chega à América Latina

A região quer deixar de ser apenas um campo de disputa para se tornar protagonista na crescente economia espacial.
Donald Partyka (Source: Getty)
Reading Time: 10 minutes

GUAYAQUIL, Equador — Por que o Equador, entre todos os países, seria um foco na nova corrida espacial da América Latina?

Bem, a resposta está no nome do país.

Em uma tarde recente, Robert Aillón e seus colegas estavam sentados a uma mesa no restaurante de uma rede hoteleira em Guayaquil, capital econômica do Equador, irradiando entusiasmo pelo projeto que propõem: um novo porto espacial privado para lançamentos verticais e recuperação horizontal de veículos em um de três possíveis locais nas proximidades.

Alguns investidores estrangeiros veem o Equador com cautela em um momento em que grupos do crime organizado disputam o controle dos portos marítimos do país, importantes centros de trânsito de cocaína com destino à Europa e à Ásia. Mas, para Aillón e seus parceiros, a região de Guayaquil é estratégica por outro motivo: Fica apenas dois graus ao sul da linha imaginária que divide o mundo em dois hemisférios.

O planeta gira em sua velocidade máxima na linha do Equador—1.040 milhas (1.670 quilômetros) por hora—tornando mais eficiente o lançamento de foguetes a partir dessas latitudes. Graças ao impulso da rotação, é necessário menos combustível para atingir a velocidade orbital, o que, por sua vez, significa que os foguetes podem transportar mais carga útil a um custo menor.

Em comparação com muitos outros países situados diretamente sobre a linha do Equador—uma lista que inclui Congo, Somália, Uganda e Indonésia, além de Colômbia e Brasil—o Equador, com sua economia dolarizada e um governo favorável aos negócios, parece atraente apesar de seus desafios de segurança.

“O que está por vir é grande,” disse entusiasmado Aillón, um equatoriano de 50 anos que trabalhou como executivo bancário em seu país e nos Estados Unidos antes de fundar a sua empresa, Leviathan Space Industries LLC. “Os portos espaciais são uma pedra angular da competitividade futura.” Muitos concordam. Um relatório do Fórum Econômico Mundial e da McKinsey & Company projetou que a economia espacial global poderia alcançar US$1,8 trilhão até 2035, ante US$630 bilhões em 2023. A oferta pública inicial de ações da SpaceX, de Elon Musk, em junho, que levantou o valor recorde de US$75 bilhões, despertou ainda mais interesse pelo setor em todo o mundo. Musk disse que buscará futuros portos espaciais fora dos Estados Unidos, com a América Latina como uma beneficiária potencial evidente.

O espaço também é cada vez mais um palco importante da rivalidade estratégica entre China e Estados Unidos, com as duas superpotências disputando, na América Latina, aliados e geografias-chave, como a região do Cone Sul, cujos céus limpos são ideais para rastrear satélites. Enquanto isso, os governos latino-americanos estão determinados a ser não apenas um campo de batalha em uma nova Guerra Fria, mas protagonistas centrais no crescimento e na governança da indústria espacial.

As ambições são literalmente de outro mundo. O objetivo declarado de Musk é estabelecer uma presença humana permanente além da Terra, garantindo assim a sobrevivência da espécie no longo prazo. Aillón usa linguagem semelhante em sua página no LinkedIn, chamando um porto espacial privado no Equador de um “primeiro passo” para as viagens interplanetárias. Planos para instalações de lançamento também foram aventados no Uruguai, na República Dominicana e no Peru. Para aqueles que ainda residem na Terra, a Argentina e o Brasil estão produzindo satélites com implicações práticas para pessoas comuns, como avaliar a qualidade das lavouras e ajudar governos a administrar melhor desastres naturais.

Ainda assim, observadores alertam para uma mentalidade de corrida do ouro na qual alguns investidores podem estar superestimando a capacidade do setor privado de construir sozinho uma indústria espacial na América Latina. Governos e empresas precisam primeiro enfrentar inúmeros desafios, incluindo instituições frágeis e infraestrutura limitada, dizem eles.

“Existem oportunidades, sim, mas elas não se materializarão automaticamente”, disse Laura Delgado López, pesquisadora sênior do Jack D. Gordon Institute for Public Policy da Florida International University. “Precisamos compreender melhor os mecanismos que moldam o setor espacial.”

De fato, a pergunta diante do setor espacial da América Latina hoje é: O que é mera empolgação exagerada, e o que está verdadeiramente ao alcance?

Potencial comprovado

Certamente, nem tudo é especulativo: A região já tem um histórico comprovado quando se trata de locais de lançamento.

O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA, na sigla em português) fica na costa nordeste do Brasil, no estado do Maranhão. Criado em 1983, o CLA está localizado apenas 2,3 graus ao sul da linha do Equador, em uma área com baixo tráfego aéreo e baixa densidade populacional. O local é atraente a ponto de autoridades dos Estados Unidos terem celebrado, em 2019, quando, após décadas de conversas, o então presidente Jair Bolsonaro assinou um chamado acordo de salvaguardas tecnológicas que permitia o uso de tecnologia norte-americana no local.

No entanto, até mesmo Alcântara tem sido uma história de potencial frustrado. Após uma explosão de foguete em uma plataforma de lançamento do CLA em 2003, que matou 21 engenheiros e técnicos, observadores dizem que o centro ficou subutilizado por muitos anos. A maioria dos lançamentos é suborbital, o que significa que eles chegam ao espaço apenas brevemente, a cerca de 60 milhas acima do nível do mar, permitindo experimentos de microgravidade, estudos atmosféricos e a crescente indústria do turismo espacial.

Alcântara realizou seu primeiro lançamento comercial em dezembro de 2025, com um foguete da empresa sul-coreana Innospace que caiu menos de um minuto após a decolagem. A Innospace planeja lançar novamente a partir do CLA ainda este ano.

O outro grande local de lançamento no continente fica cerca de 1.250 milhas a leste—na Guiana Francesa, uma região ultramarina da França. Frequentemente chamada de Porto Espacial da Europa, a instalação começou a operar em 1968 e é administrada em conjunto pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais da França, lançando foguetes governamentais e comerciais.

Nos últimos anos, muitos países da América Latina e do Caribe usaram a instalação europeia para transportar seus satélites, ilustrando a falta de alternativas plenamente viáveis dentro da própria região.

Ainda assim, ninguém duvida das possibilidades de crescimento. A ESA projeta que o número de satélites orbitando a Terra saltará de cerca de 10.000 hoje para 100.000 até 2030. Muitos serão pequenos dispositivos implantados em constelações, como as que a SpaceX opera em órbita terrestre baixa sobre várias partes do mundo para fornecer serviços de internet, um mercado no qual a Amazon também está prestes a entrar.

A torre de lançamento de foguetes do Centro de Lançamento de Alcântara em 2018.
Evaristo Sa/AFP via Getty Images

Todo esse crescimento exigirá novos locais de lançamento, bem como novos atores. O IPO da SpaceX foi considerado um marco do que alguns chamam de “new space”—uma era em que monopólios estatais vêm sendo substituídos por empresas privadas que assumem grandes riscos, têm respaldo financeiro e são orientadas ao lucro.

Mas as barreiras de entrada são altas. Aillón, CEO da Leviathan Space, citou o exemplo do Porto Espacial SaxaVord, na costa da Escócia, que, com um investimento inicial de US$57 milhões, deverá ver o lançamento de um foguete suborbital neste verão boreal. Para a iniciativa da Leviathan, Aillón disse que tentava levantar US$800 milhões a partir deste ano. A empresa já garantiu seu primeiro parceiro: a Blackstar Orbital, sediada na Flórida, que aposta em entrar no mercado de drones espaciais de carga ou vigilância.

Nem todos podem seguir o modelo da SpaceX, alertou Victoria Valdivia, pesquisadora global do European Space Policy Institute e integrante da iniciativa COSPAR-EUROMOONMARS-LUNEX.

“Na América Latina há uma tendência de falar em ‘new space’ e na economia espacial, particularmente entre muitas startups que parecem preencher o vazio em uma área em que os Estados foram ineficientes,” disse Valdivia, que também é doutoranda no Instituto de Estudios Avanzados da Universidad de Santiago de Chile.

“Como seus projetos são atraentes, eles recebem muita visibilidade, mas, por estarem mais focados em negócios do que em regulamentações, esquecem que precisam de toda uma estrutura organizacional para operar,” disse Valdivia. Ela citou licenças ambientais, bem como considerações de voo e tributárias, áreas em que as burocracias latino-americanas “não são exatamente ágeis.”

A rivalidade entre Estados Unidos e China

Ainda assim, a região tem outras vantagens naturais. Satélites precisam ser monitorados e rastreados a partir do solo, mas apenas cerca de um terço da área terrestre do planeta fica ao sul da linha do Equador. Isso coloca o território sul-americano em posição de grande valor, especialmente áreas onde os céus são geralmente mais limpos.

De fato, certas localidades são cobiçadas por grandes potências que buscam maximizar seu alcance—aquilo que o nascente campo da “astropolítica” entende como o conjunto de atividades e tecnologias que um Estado pode empregar no espaço para fins de guerra, desenvolvimento e prestígio.

Um relatório recente de um comitê do Congresso dos Estados Unidos observou que a China construiu 11 instalações de comunicações por satélite e radiotelescópios na América Latina, incluindo Argentina, Bolívia, Brasil e Venezuela, despertando preocupação entre autoridades norte-americanas quanto ao seu potencial de uso dual, dada a doutrina explícita de Pequim de fundir operações civis e militares.

Para bloquear novas iniciativas, o governo Trump—em uma aplicação atualizada da Doutrina Monroe—está pressionando abertamente os países a não receberem novas instalações chinesas relacionadas ao espaço. Nas montanhas da província argentina de San Juan, o radiotelescópio CESCO que a China estava construindo permanece inativo, tendo sido colocado de lado pela pressão dos Estados Unidos.

No Deserto do Atacama, no Chile, no topo nivelado do Cerro Ventarrones, alguns dos componentes que fariam parte de um observatório astronômico permanecem no local—um projeto cancelado pelas autoridades chilenas com base em questões legais, após advertências de Washington sobre a ameaça que ele representava à segurança dos ativos espaciais norte-americanos.

As ambições da China continuam grandes. Seguindo os passos da Starlink, de Musk, empresas chinesas buscam construir suas próprias constelações de satélites para fornecer serviços de comunicação sem fio—entre elas a Guo Wang, administrada pelo grupo estatal China Satellite Network Group, e a Qianfan, desenvolvida pela Shanghai Spacesail Technologies Co. Ltd.

Segundo o site da União Internacional de Telecomunicações, vários operadores chineses de satélites apresentaram pedidos durante a última semana de 2025 para implantar mais de 200.000 dispositivos nos próximos anos—um número astronômico que esbarra em gargalos no setor de lançamentos e já levou o gigante asiático a explorar a possibilidade de estabelecer um porto espacial equatorial na Malásia. Alguns analistas se perguntam se o próximo impulso deles será na América do Sul.

O radiotelescópio ALMA, no norte do Chile, é composto por 66 antenas de alta precisão.
John Moore/Getty

Enfrentando os obstáculos

Enquanto isso, empresas e autoridades governamentais trabalham para resolver alguns dos gargalos enfrentados pela indústria espacial—e, espera-se, aproveitar o momento.

Em 2024, o Brasil promulgou uma lei de atividades espaciais que “permitiria mais segurança jurídica para operadores de lançamento no Brasil” e, assim, representou “um passo importante rumo a futuros negócios do CLA com outros lançadores estrangeiros, privados e governamentais,” segundo Bruno Martini, cientista aeroespacial na Universidade da Força Aérea do Brasil (UNIFA). Uma nova empresa estatal, a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. (ALADA), também iniciou suas operações em 2025 com o objetivo de fortalecer o programa espacial brasileiro, incluindo o uso comercial do CLA. O Brasil agora trabalha para desenvolver seus próprios foguetes.

Apesar desse impulso renovado, a falta de financiamento continua sendo um desafio. A Confederação Nacional da Indústria observou em um relatório de 2025 que o orçamento nacional de US$47 milhões alocado ao setor espacial equivalia a apenas 0,002% do PIB do Brasil em 2023—o segundo menor nível de investimento entre os países do G20.

Muito mais ao norte, na República Dominicana, o próprio presidente Luis Abinader anunciou durante seu discurso anual ao Congresso, em fevereiro, que seu país iniciaria a construção de um porto espacial—graças a um acordo com a empresa norte-americana Launch on Demand (LOD Holding) envolvendo um investimento de US$600 milhões. “Vamos lançar um satélite ou um foguete ao espaço a partir de Pedernales—esperem para ver,” declarou o presidente. O marco deverá ocorrer em maio de 2028.

A LOD Holding é liderada por Burton Catledge, coronel reformado da Força Aérea dos Estados Unidos que anteriormente comandou o 45º Grupo de Operações, 45ª Ala Espacial da Força Aérea, apoiando inúmeros lançamentos de foguetes para gigantes do setor como SpaceX, Blue Origin e Moon Express, e que também atuou no Pentágono.

“Existem oportunidades, sim, mas elas não se materializarão automaticamente,” disse Laura Delgado López, pesquisadora sênior do Jack D. Gordon Institute for Public Policy da Florida International University.

Em entrevista à AQ, Catledge explicou que o local na República Dominicana foi escolhido por causa de sua relativa proximidade da linha do Equador (18 graus ao norte), acesso a mar aberto, baixa densidade populacional, ventos favoráveis em grande altitude e disponibilidade de múltiplas trajetórias orbitais. Ele também apontou para a construção de um porto marítimo nas proximidades—permitindo a entrega de grandes equipamentos espaciais—e para a expansão de um aeroporto vizinho para transporte de satélites, ambos promovidos pelo governo.

“O presidente Abinader disse em uma reunião: ‘Burton, aqui está meu número de telefone. Se você tiver que esperar mais de 48 horas por qualquer coisa, ligue para mim’ … A partir daquele momento, todas as portas se abriram,” disse Catledge. Ainda em maio, 528 acres de terras estatais foram adquiridos para esse fim, e um Memorando de Entendimento foi assinado com o Instituto Tecnológico de Santo Domingo (INTEC) para capacitar estudantes de engenharia e áreas correlatas em disciplinas aeroespaciais altamente especializadas, lançando as bases para o desenvolvimento de uma economia espacial no país.

O projeto prevê quatro plataformas de lançamento—duas para foguetes pesados e superpesados, uma para foguetes médios e uma para foguetes pequenos—que operarão de forma independente. O financiamento vem de investidores institucionais privados, e não de recursos públicos, disse Catledge.

O CEO da Launch on Demand disse que o projeto também conta com apoio político do governo dos Estados Unidos, interessado em expandir locais de lançamento dentro do Hemisfério Ocidental como parte de seu jogo de xadrez geopolítico com Pequim. Catledge disse que viu um “compromisso tangível dos Estados Unidos de que eles não estão apenas dizendo que estão se voltando para o Hemisfério Ocidental—eles de fato estão.”

Questões de interesse nacional

Longe dos empreendedores entusiasmados do setor privado, o Peru escolheu seguir a rota do “old space” para tentar desenvolver um porto espacial—recorrendo à sua experiência na gestão de grandes projetos de infraestrutura em parceria com atores estrangeiros, apesar de sua persistente instabilidade política dos últimos anos.

Em novembro de 2024, a agência espacial do Peru, uma entidade subordinada ao Ministério da Defesa, assinou um Memorando de Entendimento com a NASA, sob o qual começou a cooperação em estudos conjuntos de viabilidade de locais de lançamento, assistência técnica e planejamento de futuros lançamentos.

O Relatório Plurianual de Investimentos em Parcerias Público-Privadas do Ministério da Defesa para 2023-2026 estimou o custo do projeto em US$270 milhões e disse que ele teria como objetivo facilitar lançamentos de foguetes para voos orbitais e suborbitais: “Aqueles que transportarão pessoas para outros continentes em menos tempo sem completar uma órbita completa da Terra.”

O porto espacial ficaria localizado em uma base da Força Aérea Peruana—em Chiclayo, Arequipa ou Talara, sendo esta última a que gera mais discussão devido à sua localização quatro graus ao sul da linha do Equador. Delegações de especialistas espaciais dos Estados Unidos visitaram o Peru para discutir a vasta gama de considerações políticas, sociais, financeiras, econômicas e regulatórias que o país precisa levar em conta para que o projeto avance.

“Faz parte de uma iniciativa nacional por meio da qual o país busca se tornar um hub de conectividade, dada sua localização estratégica e sua política de abertura e integração global. Também é uma forma de compensar fragilidades de infraestrutura,” explicou Clemente Rodríguez, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Peruano. Ele observou que o Peru abriu recentemente um grande porto no Pacífico, ampliou seu principal aeroporto em Lima e considera a construção de um corredor ferroviário até o Brasil.

Até mesmo o Congresso peruano superou suas divisões crônicas para aprovar por ampla margem, em março, o projeto de lei apresentado pela ex-presidente Dina Boluarte declarando a criação de um porto espacial como assunto de interesse nacional. A Lei 32571 autoriza o Ministério da Defesa a liderar os estudos técnicos e jurídicos que determinarão a viabilidade do projeto.

Em séculos passados, os povos que habitavam o continente americano contemplavam o Infinito para encontrar seus deuses, elaborar calendários complexos e orientar suas pirâmides. Hoje, mesmo que ainda seja necessário trabalho para concretizar esses sonhos, os latino-americanos voltam mais uma vez seus olhos para as estrelas.

ABOUT THE AUTHOR

Juan Pablo Toro
Reading Time: 10 minutes

Toro is a Senior Research Fellow at AthenaLab think tank (Chile) and Senior Associated Fellow at RUSI. He recently visited Antarctica for the fourth time.

Follow Juan Pablo Toro:   LinkedIn  |   X/Twitter
Tags: Latin America's Space Race, Space
Like what you've read? Subscribe to AQ for more.
Any opinions expressed in this piece do not necessarily reflect those of Americas Quarterly or its publishers.
Sign up for our free newsletter