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Lula é antiamericano?

É complicado, escreve o editor-chefe da AQ.
Presidente Luiz Inacio Lula da Silva durante a cúpula UE-CELAC, dia 17 de julho. Simon Wohlfahrt/Bloomberg via Getty Images
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Essa é a pergunta que não quer calar em Washington: “Lula é antiamericano?” Desde que retornou à presidência do Brasil em 1º de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva tem causado alarme na capital dos EUA e em outros lugares com seus comentários sobre a Ucrânia, a Venezuela, o dólar e outras questões importantes. Uma reportagem não confirmada da GloboNews em junho disse que o presidente Joe Biden pode ter abandonado qualquer intenção de visitar Brasília antes do final do ano devido à frustração com as posições de Lula.  

A pergunta faz muitos revirarem os olhos, e com razão. Três décadas após o fim da Guerra Fria, algunas pessoas nos Estados Unidos continuam a ver a América Latina em termos de “ou você está conosco ou contra nós”. Washington tem um longo histórico de se irritar com as posições independentes do Brasil, desde os medicamentos genéricos contra a AIDS na década de 1990 até as negociações comerciais na década de 2000 e o caso Edward Snowden na década de 2010. Um grande país latino-americano operando com confiança em seu próprio interesse nacional, nem aliado nem totalmente contra os Estados Unidos, simplesmente não faz sentido para alguns em Washington, e talvez nunca faça. 

Dito isso, há uma longa lista de pessoas razoáveis em lugares como a Casa Branca e o Departamento de Estado dos EUA, em “think tanks” e no mundo dos negócios que são perfeitamente capazes de entender as nuances — e que ainda assim percebem como uma ameaça a política externa de Lula neste seu terceiro mandato. A lista de transgressões percebidas é longa e crescente: Lula tem repetidamente ecoado as posições russas sobre a Ucrânia, dizendo que ambos os países compartilham a mesma responsabilidade pela guerra. Em abril, Lula disse que a culpa pelas hostilidades contínuas recaía “sobretudo” sobre os países que estão fornecendo armas — um tapa nos Estados Unidos e na Europa, dado nada menso que durante uma viagem à China. Lula trabalhou para reviver o extinto bloco da UNASUL, cujo objetivo explícito era combater a influência dos EUA na América do Sul. Ele tem insistido repetidamente para que os países evitem o dólar americano como mecanismo de comércio sempre que possível, expressando seu apoio a novas alternativas, incluindo uma moeda comum com a Argentina ou seus outros vizinhos. Lula tem criticado duramente as sanções dos EUA contra a Venezuela — “pior do que uma guerra“, disse ele — ao mesmo tempo em que minimiza a repressão, a tortura e outros abusos dos direitos humanos cometidos pela própria ditadura.  

Para alguns observadores, a conclusão inevitável é que a política externa de Lula não é neutra ou “não alinhada”, mas abertamente favorável à Rússia e à China e hostil aos Estados Unidos. Isso tem sido uma decepção em especial para muitos no Partido Democrata que, por um breve período, viram Lula como um herói da democracia e aliado natural depois que ele também derrotou uma ameaça autoritária de extrema direita que negava as eleições. E para que fique registrado, não são apenas os americanos que se sentem assim: o jornal francês Liberation, de esquerda, em um editorial de primeira página antes da visita de Lula a Paris em junho, chamou-o de “falso amigo” do Ocidente.

Parafraseando o velho ditado, é impossível saber o que realmente se esconde no coração dos homens. Mas como alguém que tentou entender Lula nos últimos 20 anos, com resultados reconhecidamente mistos, deixe-me dar minha melhor avaliação do que realmente está acontecendo: Lula pode não ser anti-EUA no sentido tradicional, mas ele é definitivamente contra a hegemonia dos EUA e está mais disposto do que antes a fazer algo a respeito.

Ou seja, Lula e sua equipe de política externa não desejam mal a Washington da mesma forma que Nicolás Maduro ou Vladimir Putin e, na verdade, veem os Estados Unidos como um parceiro fundamental em questões como mudança climática, energia e investimento em infraestrutura. Mas eles também acreditam que a ordem global liderada pelos EUA nos últimos 30 anos não tem sido boa para o Brasil ou, de fato, para o planeta como um todo. Eles estão convencidos de que o mundo está caminhando para uma nova era “multipolar”, mais equitativa, na qual, em vez de um país na cabeceira da mesa, haverá, digamos, oito países sentados em uma mesa redonda — e o Brasil será um deles, juntamente com a China, a Índia e outros do Sul Global em ascensão. Enquanto isso, Lula perdeu um pouco das inibições e dos freios que o seguravam durante sua presidência de 2003 a 2010 e está ativamente tentando conduzir o mundo a essa nova e promissora fase — com um entusiasmo e uma militância evidentes que incomodam muitos no Ocidente, o que é compreensível.

“Uma nova geopolítica”

Em particular e em público, os aliados de Lula rejeitam vigorosamente a ideia de que ele é antiamericano — destacando que ele visitou Washington seis semanas após assumir o cargo e teve uma reunião amigável com Biden, segundo todos os relatos. Se a delegação que Lula levou à China dois meses depois era muito maior e mais ambiciosa, como muitos apontaram, bem, isso é realpolitik: A China estava oferecendo ao Brasil muito mais em termos de investimento e apoio, e agora compra três vezes mais exportações brasileiras do que os Estados Unidos. Lula nunca daria continuidade ao alinhamento quase automático com os EUA que caracterizou grande parte (embora não toda) da presidência de Jair Bolsonaro. Mas ele tem um longo histórico de engajamento pragmático e muitas vezes amigável, incluindo um vínculo pessoal aparentemente genuíno com George W. Bush durante sua primeira presidência. Quando me encontrei com o principal assessor de política externa de Lula, Celso Amorim, em São Paulo, no ano passado, para uma conversa que seria privada, Amorim fez uma pausa e me disse enfaticamente: “Isso você pode publicar: É do interesse do Brasil ter um relacionamento positivo com os Estados Unidos. Sem dúvida”. 

Os presidentes Joe Biden, direita, dos EUA e Luiz Inácio Lula da Silva durante visita à Casa Branca em fevereiro. (Foto: Anna Moneymaker/Getty Images)

A ideia de que o mundo se beneficiaria de uma ordem mais multipolar e de que o Brasil deveria pressionar “ativa e altivamente” nessa direção tem sido um princípio dominante de sua política externa há muitos anos (graças, em parte, a Amorim, que foi ministro das Relações Exteriores pela primeira vez no início da década de 1990). A longa e infrutífera busca do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, é vista por todo o espectro político como um sinal de que uma maior influência terá de ser arrancada dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, em vez de solicitada educadamente. Nesse sentido, o lobby de Lula pela paz na Ucrânia pode ser entendido não como instintivamente antiocidental, mas como expressão da doutrina de que a sexta nação mais populosa do mundo deve se envolver, se necessário, nas principais questões do momento, como fez (ou tentou fazer) durante a primeira presidência de Lula em assuntos como as ambições nucleares do Irã, a paz no Oriente Médio e as negociações comerciais em Doha.

O problema, do ponto de vista ocidental, é que Lula e Amorim parecem achar que não é suficiente para o Brasil simplesmente se fortalecer no cenário mundial. Em vez disso, eles parecem acreditar que, para que o Sul Global se erga, o Brasil deve trabalhar para derrubar ativamente, ou pelo menos enfraquecer, os pilares da ordem liderada pelos EUA nas últimas décadas.

A evidência mais clara disso provavelmente não são as posições de Lula em relação à Ucrânia ou à Venezuela, que receberam a maior parte da atenção, mas sua incansável defesa de que os países abandonem o dólar americano. “Toda noite eu me pergunto por que todos os países são obrigados a fazer seu comércio atrelado ao dólar”, disse Lula, sob aplausos, durante sua viagem à China. “Quem foi que decidiu ‘eu quero o dólar’ depois que o padrão ouro acabou?” Ele expressou sentimentos semelhantes quando recebeu o ditador venezuelano em maio e defendeu a ideia de uma moeda comum do BRICS. É importante observar que o Brasil não tem um problema de escassez de dólares; ao contrário, tem vastas reservas, o que significa que a defesa de Lula só pode ser entendida como parte de um projeto geopolítico mais amplo. Enquanto isso, na recente cúpula de líderes sul-americanos Lula se concentrou em uma proposta para restabelecer a UNASUL, que foi fundada na década de 2000 como um contrapeso à Organização dos Estados Americanos, sediada em Washington (e que mais tarde se desfez quando se tornou cegamente esquerdista demais para a maioria de seus membros). A posição do Brasil em relação à Ucrânia é mais complexa, mas a retórica de Lula e o cultivo de laços calorosos com Moscou, de modo geral, muitas vezes parecem estar enraizados em um desejo de destruir a OTAN, talvez o símbolo máximo da ordem do pós-guerra.

“Nossos interesses com relação à China não são apenas comerciais”, disse Lula em Pequim. “Estamos interessados em construir uma nova geopolítica para que possamos mudar a governança global, dando mais representatividade às Nações Unidas.”

É claro que essas são escolhas estratégicas válidas, e o Brasil não está sozinho nesses pontos de vista. Lula e Amorim podem, de fato, acreditar que o futuro do Brasil está mais com seus parceiros do BRICS do que com um país onde bombardear o México se tornou uma ideia dominante de política externa em um dos dois principais partidos. Da mesma forma, é fácil entender por que a noção mais ampla de um Sul Global reprimido finalmente se livrando dos grilhões da dominação por potências ricas e outrora colonialistas atrai alguém que vê o mundo principalmente pelas lentes da luta de classes, como Lula. Aos 77 anos de idade, e depois de sua experiência na prisão, Lula pode ter passado do ponto de morder a língua e sentir que agora é o momento de agir de forma decisiva em uma variedade de causas que ele passou a vida inteira perseguindo. (Amorim, para registro, tem 81 anos).

Mas não há dúvida de que os últimos seis meses colocaram Lula em desacordo com outro princípio estimado da política externa brasileira: A ideia de que o Brasil pode ser essencialmente amigo de todo mundo. O tom em Paris, Berlim, Bruxelas e Washington tem sido menos de raiva, e mais de surpresa e decepção entre as pessoas que estavam profundamente predispostas a abraçar Lula e o Brasil de forma mais ampla, na esteira dos anos desordenados de Bolsonaro. Muitos se perguntaram, de forma justa, por que Lula está tão empenhado em reforçar a influência de ditaduras cujos valores não correspondem ao seu próprio histórico de 40 anos de defesa da democracia no Brasil. Se suas ações acabaram por aproximar ou distanciar o Brasil de seu sonho de maior relevância global é a maior questão de todas, e dependerá do que exatamente acontecerá a seguir.

Um caminho difícil pela frente

Nas últimas semanas, houve sinais de que Lula pode estar adotando uma abordagem diferente. “Não quero me envolver na guerra da Ucrânia e da Rússia”, disse ele em 6 de julho. “Minha guerra é aqui, contra a fome, a pobreza e o desemprego.” Essa possível mudança, se ocorrer, pode ser impulsionada não pela reação ocidental, mas pela opinião interna; pesquisas recentes sugerem que a política externa de Lula pode estar prejudicando seu índice geral de aprovação em um país onde, fora da esquerda, a maioria das pessoas tem uma visão positiva dos Estados Unidos e do Ocidente. Mas também não é realista esperar uma grande mudança sem uma reformulação total da equipe de política externa de Lula — o que quase ninguém em Brasília espera que aconteça.

Isso significa que Washington precisa descobrir como lidar com a situação. Algumas vozes têm insistido no confronto, dizendo que Washington deve alertar Brasília de que os investimentos dos EUA e outras áreas de cooperação sofrerão sem uma mudança de rumo. A história mostra que essa abordagem quase certamente sairá pela culatra, mas pode ganhar mais adeptos à medida que a eleição de 2024 se aproxima e os republicanos buscam aprimorar suas credenciais “anticomunistas”. (A propósito, Lula é um capitalista, mas isso é outro artigo.) O governo Biden, sabiamente, optou por uma estratégia mais mista; respondendo firmemente contra o Brasil quando necessário, mas também tentando reconhecer suas ambições. Fontes me disseram que, durante a reunião de fevereiro, Biden disse a Lula que ele vê o Brasil “não como uma potência regional, mas como uma potência global” — um comentário que provocou um vigoroso aceno de cabeça do líder brasileiro. Ainda não se sabe se Washington conseguirá descobrir uma maneira de transformar essa visão em realidade, de forma que não prejudique seus próprios interesses ou a ordem democrática de forma mais ampla.


Tags: Brazil, foreign relations, Joe Biden, Luiz Inácio Lula da Silva, United States, White House
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