China-Latin America 2.0

A China pode ajudar a reconstruir a Venezuela. Veja como.

Um novo governo em Caracas precisará de uma estreita parceria com Pequim.
FEDERICO PARRA/AFP/GETTY

Este artigo foi adaptado da matéria impressa da AQ sobre a pirataria na America Latina | Read in English | Leer en español

Na última década, acadêmicos e a oposição venezuelana lamentaram, com razão, a forte aposta da China na Revolução Bolivariana do presidente Hugo Chávez. Os empréstimos lastreados em petróleo concedidos por Pequim não tinham transparência e eram insustentáveis, já que nessas transações Caracas comprometeu tragicamente futuras exportações de petróleo para a China, deixando de usar o dinheiro resultante para investir e aumentar a produção. No geral, essa política foi um desastre, abrindo as portas para decisões macroeconômicas irresponsáveis que levaram a Venezuela ao pior colapso econômico da história da América Latina.

Com um saldo pendente de 19 bilhões de dólares, é altamente improvável que a China seja reembolsada integralmente. A dívida externa da Venezuela é agora mais de seis vezes o total das suas exportações, e essa proporção vai piorar significativamente na esteira das recentes sanções impostas pelos Estados Unidos.

Depois de uma catástrofe como essa, será que a China ainda pode desempenhar um papel positivo na reconstrução da economia venezuelana após a queda de Nicolás Maduro? Eu acredito que sim. Na verdade, o apoio da China será essencial para a recuperação da Venezuela no longo prazo. No entanto, primeiro Pequim precisa mudar significativamente sua abordagem em relação a Caracas.

Fonte: IAD China-Latin America Finance Database

Um credor generoso e descuidado

De 2007 a 2017, Pequim forneceu mais de 60 bilhões de dólares em financiamento — principalmente para o governo central venezuelano e amplamente garantido pelas exportações de petróleo. Isso tornou a Venezuela o destino de mais de 40% do total de empréstimos chineses na América Latina. Inicialmente, os empréstimos não estavam condicionados a nenhum desempenho. Porém, evidências incontestáveis de gastos dispendiosos e improdutivos, combinadas com a incerteza política produzida pela doença e morte consequente de Chávez, mudou a abordagem da China em relação à Venezuela.

Desde a ascensão de Nicolás Maduro ao poder em 2013, o governo chinês não ofereceu linhas de crédito adicionais, apenas renovando algumas preexistentes. Além disso, os poucos empréstimos concedidos estavam restritos a joint ventures com empresas chinesas e quase exclusivamente à extração de petróleo.

Após o colapso dos preços do petróleo em 2014, a Venezuela entrou em moratória com a China e deixou de enviar barris de petróleo suficientes para saldar a dívida dentro do cronograma. Eventualmente, em 2016, a China deu uma mão a Caracas, oferecendo um período de carência de dois anos, durante o qual a Venezuela só precisou pagar juros sobre a dívida pendente. Esse período de alívio expirou no ano passado e a China não o renovou. Desde então, a Venezuela envia à China mais de 300.000 barris de petróleo por dia — mais de 25% do total das exportações — para pagar suas dívidas.

De fato, apenas cerca de 30% da produção de petróleo da Venezuela gerou fluxo de caixa. O resto foi usado para pagar dívidas ou foi doado — tanto no mercado interno quanto nas exportações para os países aliados (principalmente Cuba). Em parte como resultado dessa crise de liquidez, a produção da Venezuela caiu para menos da metade do que era em 2015, atingindo 1,2 milhão de barris por dia em dezembro de 2018.

Negociador, investidor e comprador

Em contraste com a Rússia, a China tem sido bem cautelosa ao lidar com a atual crise política da Venezuela, sinalizando que trabalharia com qualquer governo no desenvolvimento de uma estratégia de cooperação de longo prazo. Depois que a transição de governo se concretizar, a China poderia desempenhar um papel construtivo no apoio a um programa multilateral de estabilização macroeconômica, que incluiria uma reestruturação significativa da dívida.

Pequim deve continuar sendo um dos principais investidores na indústria petrolífera venezuelana. O maior importador de petróleo do mundo tem muito a se beneficiar de uma presença significativa na Venezuela, que tem uma das maiores reservas de petróleo do planeta. Além disso, à medida que o petróleo pesado canadense e a produção norte-americana substituem as exportações venezuelanas no mercado americano, a Índia e a China se tornarão os principais mercados para a produção petrolífera venezuelana.

Para voltar a produzir 3 milhões de barris por dia, como acontecia no início desta década, a indústria petrolífera venezuelana exigirá mais de 15 bilhões de dólares em investimentos anuais pelos próximos dez anos. A PDVSA, a estatal venezuelana, só poderá investir uma pequena fração desse montante. A maior parte do dinheiro terá que vir de empresas estrangeiras. As empresas chinesas (e indianas) podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento das enormes reservas de petróleo extrapesado da Venezuela. As empresas ocidentais não estão dispostas a desenvolver esse tipo de recurso, e refinarias da China e da Índia estão entre os poucos compradores em potencial.

Para que isso funcione, os investimentos chineses na Venezuela precisam ser muito mais transparentes e responsáveis. Pequim também deve se envolver mais diretamente para garantir que os investimentos sejam alocados de maneira eficiente, gerando um retorno à Venezuela para o pagamento de empréstimos. Por outro lado, Caracas precisa de processos de licitação competitivos e transparentes para atrair investimentos e financiamento chineses, em igualdade de condições com empresas ocidentais e bancos de desenvolvimento.

É difícil imaginar que dois países que se complementam tão bem desperdicem a oportunidade de uma colaboração estratégica de longo prazo — mesmo que isso signifique virar a página e deixar para trás os fiascos atuais.

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Monaldi é especialista em política energética da América Latina e professor da Rice University

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Tags: Venezuela, Maduro, China e Venezuela


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