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AQ Feature

CHEGA! A epidemia de assassinatos da América Latina precisa de soluções democráticas urgentes

A região representa 8% da população mundial, mas um terço de seus homicídios. Uma nova edição do AQ apresenta pessoas inspiradoras que trabalham para mudar isso.
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Eric Marti/AP

Este artigo foi adaptado da matéria impressa da AQ.

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A violência parece ser a única coisa na América Latina que nunca melhora.

No geral, os últimos 25 anos foram uma era de progresso para a região: a democracia ganhou força, a classe média cresceu mais de 50%, a saúde pública e a educação avançaram. Em muitos países, a corrupção já não é tolerada e as instituições judiciais estão florescendo. No entanto, a taxa de homicídios na América Latina, que já é três vezes pior que a média global, continua aumentando — a um ritmo de cerca de 4% ao ano.

Os números mostram um quadro assustador: a América Latina representa 8% da população mundial, mas registra 33% do total de homicídios. Mais de 2,5 milhões de latino-americanos foram assassinados desde a virada do século. A taxa de homicídios regional, de cerca de 21,5 casos para cada 100 mil habitantes, poderia quase que dobrar até 2030 se as tendências atuais continuarem, de acordo com o Instituto Igarapé, um centro de estudos sediado no Rio de Janeiro.

O número de vidas perdidas e famílias devastadas seria motivo suficiente para colocar o combate aos homicídios no topo da lista de prioridades. Mas há também um claro argumento econômico: a América Latina pode ter perdido mais dinheiro em 2017 devido à violência (cerca de US$ 170 bilhões, segundo o Igarapé) do que o que obteve com o investimento estrangeiro direto (US$ 167 bilhões). As estratosféricas taxas de homicídio da América Central são o principal motivo da imigração de refugiados para o norte. Mas há outra razão mais recente para soar o alarme: a própria Democracia pode estar em perigo. E há outra razão mais recente para soar o alarme: a própria democracia pode estar em jogo.

O apoio à democracia vem caindo de forma constante em toda a América Latina e está agora no seu nível mais baixo em mais de uma década, segundo o Latinobarómetro, um instituto de pesquisas. Em grande parte da região, a frustração com o crime e a violência ‑ e a realidade social em geral ‑ está alimentando a ascensão de populistas que desdenham abertamente as instituições democráticas. Isso é mais claramente visto no Brasil, onde o capitão do Exército aposentado Jair Bolsonaro lidera as pesquisas para as eleições presidenciais de outubro. Bolsonaro propõe permitir que todos os brasileiros portem armas e oferecer “carta branca” aos policiais para matar suspeitos de crimes. A história sugere que tais políticas geralmente surtem efeito contrário, em vez de melhorar, pioram a situação. No entanto, o apoio a um governo repressivo é abundante: 38% dos brasileiros disseram no ano passado que uma ditadura militar seria favorável ao país. Muitos outros habitantes da região, especialmente na América Central, concordam.

Esta edição da AQ tem a meta de mostrar que outros caminhos são possíveis – e preferíveis. Nos três maiores países com eleições presidenciais em 2018 ‑ Colômbia, Brasil e México ‑ encontramos pessoas corajosas implementando soluções sensatas e democráticas. Suas histórias provam que mesmo os lugares mais violentos podem ver progresso. Elas também mostram que a segurança não é apenas responsabilidade do governo; o setor privado e a sociedade civil também devem fazer a sua parte.

Na verdade, não existe nenhum segredo único para reduzir as taxas de homicídio: é preciso uma combinação de policiamento preventivo, uso inteligente de dados e, possivelmente, reforma da legislação sobre drogas. Alguns lugares, incluindo a Colômbia e o Estado de São Paulo, viram um progresso significativo nos últimos anos graças a essas políticas. Mas qualquer solução mais ampla e duradoura exigirá uma mudança radical na forma de pensar: as elites latino-americanas devem parar de se esconder do problema ou considerá-lo uma aflição exclusiva sdos pobres. Sem um impulso urgente de mudança, a região pode entrar em um novo período que lembraria mais os anos perdidos das décadas de 60 e 70, e menos o progresso claro, embora imperfeito, da era pós-Guerra Fria.

- Brian Winter, editor chefe


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